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Jornal da Vila

06/08/2017

Educação afirma que Vila não tem demanda para creche - Fila de espera de 48 alunos no Berçário I justifica creche

 Legenda: Emei Anita Procópio Junqueira atende crianças de 4 a 6 anos. A área da escola comporta a construção de uma grande creche.

 

Em audiência sobre a destinação do Lar Santana que aconteceu no dia 29 de maio na Câmara Municipal, a representante da Secretaria Municipal da Educação, Renata Pessolo Peraro, afirmou que a Vila Tibério não tem demanda para instalação de uma creche. Diante dessa questão o Jornal da Vila foi a campo para levantar o problema.
A Vila Tibério, que perdeu o Lar Santana e o Centro de Convivência Santa Úrsula recentemente, não pode ganhar uma creche?
O JV encontrou mães que levam seus filhos em creches na Vila Virgínia e no Alto do Ipiranga e Paiva. Procurou também o Lar Escola, creche mantida pelo Centro Espírita Aprendizes do Evangelho, para saber se havia fila de espera.
O Lar Escola atende 102 crianças em período integral. No Berçário II (de 1 a 2 anos) são 20 alunos com uma fila de espera de 48. Nesta categoria, são 8 crianças por sala, o que dá uma total de seis salas, o que já justifica uma creche no bairro. Segundo a direção da escola, as crianças cadastradas são todas da Vila Tibério e região. O Lar Escola atende também 48 crianças do Maternal I (de 2 a 3 anos) e 36 do Maternal II (de 3 a 4 anos).
CENSO DE 2010
Outros números que desmentem a Secretaria da Educação é o Recenseamento de 2010, que já está defasado, mas dá um parâmetro. Segundo o Censo do IBGE, a região O2 de Ribeirão Preto, que compreende o bairro da Vila Tibério, o número de crianças com idade entre 1 e 2 anos era de 143. Entre dois e três anos, 157. E entre os três e quatro anos, 136. A soma era de 436 crianças com idade para frequentar creches. Se acrescentarmos as 161 crianças com menos de 1 ano, idade para frequentar o Berçário I, teremos um total de 597 potenciais clientes de uma creche. Eram quase 600 em 2010.
O Jornal da Vila procurou a dra. Trude Franceschini, pediatra do CSE Vila Tibério, que apontou um artigo que mostra o problema de crianças sem creche na Vila Tibério, publicado no site RESC - Revista Saúde na Comunidade com endereço hptt://saudenacomunidade.wordpress.com/2015/11/06/resc2015-e156/
O artigo que publicamos em parte na sequência, mostra um levantamento das situações de vida das crianças, dos adolescentes e de suas famílias sob a perspectiva da vulnerabilidade.
Artigo
"O conceito ampliado de saúde aflora a necessidade de reconstrução dos modos de se pensar as práticas em saúde integradas a estratégias e a políticas contextualizadas às demandas da comunidade e de seu território. (...)
Este artigo traz um relato de experiência sobre o PST, realizado na disciplina Atenção à Saúde da Comunidade I, do primeiro ano do curso médico da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. O projeto teve como um de seus objetivos identificar as situações de vulnerabilidade em famílias com crianças e adolescentes de 1 a 14 anos de idade no território do Centro de Saúde Escola (CSE) Vila Tibério.
O grupo de dez estudantes do primeiro ano de Medicina elaborou um questionário com embasamento bibliográfico no que tange aos conceitos-chave do trabalho para ser aplicado em visitas domiciliares. Foi realizado um levantamento das famílias cadastradas no Sistema de Informação da Atenção Básica pelos agentes comunitários de saúde (ACS) do CSE Vila Tibério. A partir do número de famílias cadastradas, optou-se por visitar 10% de famílias de cada uma das oito microáreas que tivessem crianças de 1 a 14 anos. Após a identificação das famílias, os ACS selecionaram aquelas a serem entrevistadas, considerando a possibilidade efetiva de realização das entrevistas, após consentimento da direção do CSE. Os ACS acompanharam os estudantes nas visitas e explicaram o projeto às famílias que eram convidadas a participar. As visitas foram realizadas em duas tardes dentro do horário da disciplina. No retorno das visitas, o grupo discutiu os achados e possíveis estratégias de enfrentamento dos problemas observados.

Dados alarmantes
Os dados revelaram que 19,4% das crianças que se encontravam nas residências não moravam, de fato, no local. Para esses casos, a justificativa foi a inexistência de pessoas que cuidassem dessas crianças em suas próprias residências, indicando a necessidade de que essas passassem um período em outro local, como casas de vizinhos, de tios, de avós ou demais conhecidos, para não ficarem sozinhas.
Em 88,8% dos casos, as crianças permaneciam sob supervisão de um responsável maior de 18 anos, porém em 4,8% dos casos, as crianças permaneciam sozinhas no período extraescolar. Quanto às atividades realizadas por essas crianças no período extraescolar, 45,5% ficavam somente dentro de casa, por exemplo, assistindo à televisão ou utilizando o computador. Apenas 20% das crianças frequentavam algum reforço escolar, esporte ou creche, sendo essas atividades as principais demandas da população do bairro quando interrogada sobre o que poderia melhorar a situação de crianças durante o período extraescolar. A falta de atividades extraescolares favorece a permanência das crianças em casa, afastando-as do convívio social com indivíduos de sua faixa etária e de atividades que promovem saúde, como aquelas ligadas à cultura e à prática esportiva. Esses jovens, ao ficarem sozinhos em casa, podem ainda ter aumentadas as chances de ocorrência de acidentes domésticos e a exposição a outros riscos, como a tendência ao sedentarismo e ao isolamento social, o que, muitas vezes, leva à obesidade, à baixa autoestima e à perda criativa, essa tão importante e necessária ao desenvolvimento infanto-juvenil. Apenas 7,3% das crianças podiam brincar na rua, o que pode refletir o receio dos responsáveis diante das condições de insegurança do bairro associadas à indisponibilidade de equipamentos sociais acessíveis. (...)
Contribuição
O projeto possibilitou conhecer a situação das crianças do bairro, população cujas demandas são ainda pouco conhecidas e que, por isso, está menos propensa a se beneficiar de ações de promoção de saúde desenvolvidas pelo CSE. O trabalho contribuiu para uma melhor compreensão do cenário de vulnerabilidade vivenciado pelas crianças, pelos adolescentes e por suas famílias no território em questão, revelando que essa realidade tão presente no cotidiano e, muitas vezes, vista como comum não deve ser assim compreendida. Os resultados representaram um recorte de uma realidade e trouxeram evidências que indicam a necessidade de aprofundamento de estudos que enfoquem as situações de vulnerabilidade para o desenvolvimento concreto de estratégias a fim de se minimizar essa problemática e melhorar a qualidade de vida das crianças e dos adolescentes da Vila Tibério".

Autoria: Beatriz Edla Caetano,
Bruno Quintino de Oliveira,
Camila de Oliveira Toledo, Estenifer Marques Balco, Trude Ribeiro da Costa Franchescini
e Janise Braga Barros Ferreira

 

Depoimentos Mães

Jordana Lima tentou cadastrar Felipe na Emei Anita Procópio Junqueira, mas disseram que não podia, pois ele tinha dois anos.
Foi no Lar Escola e não tinha mais vaga. Ele não vai pra escolinha, pois não tenho condições de pagar

Thanauara Bevilacqua cadastrou Luiza, de 9 meses, na Emei Áurea Bragueto e aguarda vaga nas creches Roberto Taranto,
no Alto do Ipiranga, e
Deolinda Gasparini e Alaor Galvão César, na Vila Virgínia

 

Depoimentos Especialistas

Com base no levantamento de dados do trabalho dos estudantes de Medicina (leia ao lado) que argumentamos tanto na audiência na Câmara de Vereadores quanto na do Círculo Operário que sugerímos a transformação do Lar Santana em espaço de convivência cultural para as crianças e adolescentes, uma vez que as crianças no contraturno escolar estão algumas vezes só, muitas na frente da televisão, quando não estão na rua em situação de risco. Não só as crianças, mas os pais que não podem trabalhar, também estão em situação de vulnerabilidade. Mas uma creche também é muito necessária: no CSE da Vila Tibério atendemos atualmente 59 crianças em idade de creche.
Trude Francheschini - pediatra

O bairro da Vila Tibério não é somente um bairro de idosos, possui muitas famílias com crianças em idade de creche (educação infantil). As famílias tem seu orçamento comprometido com pagamentos de escolas particulares por falta de vaga nas creches públicas e ou deixam as crianças com irmãos. Vivemos momentos difíceis mesmo para quem tem seus empregos e muitas crianças vivem situações de vulnerabilidade com exposição a riscos mesmo dentro de suas residências.
Loudes Iosif Pires - assistente social

 

Lar Santana e Centro de Convivência do Santa Úrsula encerram atividades

O Lar Santana, que era mantido pelas Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição, encerrou suas atividades em dezembro de 2014, deixando de atender gratuitamente meninas, na faixa etária dos 5 aos 9 anos, por meio período, para complementação escolar. Atendendo cerca de 50 meninas, o Lar dava formação integral e profissionalizante, oferecendo cursos de informática, música, crochê, bordado, além de formação humana e religiosa.
O Centro de Convivência Santa Úrsula, mantido pela Associação das Ursulinas de Ribeirão Preto, encerrou suas atividades em dezembro de 2015. Era um projeto com crianças de 6 a 11 anos de idade, nas mais diversas situações de vulnerabilidade social e que apresentassem dificuldades de aprendizagem e ou necessidades educacionais especiais.
Funcionava como apoio pedagógico (reforço escolar).